Comunicar (nem sempre) é canja

Partimos muitas vezes do princípio de que, por vivermos num tempo em que saber comunicar – e, por sinal, falar bem em público -, é obrigatório para quem se expõe publicamente (nem que seja só um bocadinho), toda a gente o sabe fazer. Alerta de spoiler: não é verdade.

Vamos por pontos. Primeiro ponto: não é indispensável saber falar bem em público. É recomendável, sim, por variadíssimas razões que enumeraremos em seguida, mas não está a falhar enquanto ser humano quando subir a palco e interpretar “sem espinhas” o papel de apresentador desinibido não é a sua primeira opção.

Segundo ponto: tal como a maioria das competências (senão mesmo todas), saber comunicar de forma eficiente requer paciência, compromisso e prática. Costumo partilhar com as pessoas que investem o seu tempo em assistir às palestras que vou dando, ou a frequentar as formações que volta e meia partilho, que falar bem em público não é uma característica destinada a apenas alguns afortunados, nascidos a fazer pontaria à lua e inacessível aos restantes. Não. Saber comunicar com sucesso é a ferramenta do século. E tendo em conta o empenho em fazê-lo bem por parte das empresas, entidades governativas, pessoas tendencialmente influentes, etc., em princípio já estará farto de saber porquê.

Terceiro ponto: se não souber organizar as ideias, não vai comunicar com sucesso. A comunicação vem de dentro para fora. Lembro-me de me cruzar com a seguinte frase: só comunica bem quem pensa bem. E só pensa bem quem está bem resolvido consigo mesmo e tem a mente equilibrada, disponível para utilizar o seu potencial ao máximo.

Quarto ponto: o melhor improviso é o que está mais preparado. No início da minha carreira como jornalista, acompanhei de perto um grupo de humoristas que fazem improvisação em palco. Claro que achava que eram uns super-heróis vindos diretamente do planeta da Comunicação, tendo em conta a forma maravilhosa como driblavam qualquer sugestão vinda do público. Estava absolutamente rendida às suas capacidades comunicativas. E um bocadinho invejosa, pois cobiçava aquele talento. Acredito que consiga imaginar o meu estado de choque quando pude presenciar as horas (as horas!) de preparação a que se sujeitavam. Numa base diária. Com espaço para falhas e para repetições. Esfalfavam-se na preparação. Depois, iam para palco e brilhavam. Todos os ângulos estavam cobertos.

Quinto ponto: ninguém gosta de comunicar em ambientes desconfortáveis. Se lhe disserem o oposto, ou estão a mentir, ou não têm noção completa do que estão a sentir. Podemos gostar do resultado, quando nos corre bem, claro. E se nos corre bem muitas vezes podemos até ficar “viciados” no momentum e entrar quase em transe. Porém, daqueles segundos-minutos-horas em que o estômago se aninha, os ombros nos protegem e temos tendência a encolher-nos, reitero: ninguém gosta.

Astronauta a preparar um discurso para falar em público

O curioso é que, nos dias que correm, é relativamente fácil termos acessos à teoria, a técnicas, fórmulas e utensílios que nos ajudam a sair de situações dessas. Se ainda lá estamos, se insistimos em colocarmo-nos em posições que não nos são propriamente favoráveis (comunicacionalmente falando), então a responsabilidade é nossa. Não minha e sua, necessariamente, mas de cada um de nós. Somos responsáveis por nós mesmos. Claro que há muito que nos afeta, o ambiente em que estamos inseridos, as pessoas com quem convivemos, a educação que recebemos, os neurónios espelho, enfim, uma data de coisas. Mas em última instância, isto é entre “me, myself and I”.

Portanto, este é o seu lembrete para dar o passo em direção à boa comunicação. Encará-la de frente e tratá-la por tu. Chegou a hora.

Comunicar bem em todas horas, em todos os lugares, independentemente do contexto, é extremamente útil, deixe-me que lhe diga. Até porque encaminhar alguém emocionalmente mais complicado para outro caminho que não o nosso, mas de forma elegante e objetiva tem outro sabor. Atua diretamente na área do cérebro ligada à recompensa, sabe?

Um bom comunicador é, geralmente um bom profissional. Porque para comunicarmos bem necessitamos de um conjunto de soft skills que, conjugadas com tudo o resto que já sabemos e que vamos aprendendo ao longo da vida, se tornam uma mais-valia constante nas nossas vidas.

E, verdade seja dita, quem é que é que não quer saber estruturar as suas ideias com clareza e impacto? Utilizar a linguagem corporal e o tom de voz como ferramentas de persuasão? (Recomendo muito.) Adaptar a mensagem às diferentes situações e diversos públicos, nomeadamente para uma câmara, púlpito, apresentação de trabalhos, propostas, podcasts, ou para as redes sociais? (A lista é interminável…). Controlar o nervosismo e transformar a ansiedade em confiança? (Precisei de alguns anos para dominar esta parte, mas uma coisa é certa: consegui. Com sucesso. E cada um tem o seu tempo).

Astronauta a discursar

Permita-me que partilhe um episódio em que fui brindada com uma pergunta bastante interessante por parte de um formando.

Breve contexto: quem? Gustavo (nome fictício); onde? sala de aula; quando? algures nesta década; o quê? “Susana, o facto de as pessoas entenderem aquilo que eu quero dizer faz de mim um bom comunicador?”

Faço o que fiz na altura, que foi devolver a questão. Pergunto-lhe a si, querido(a) leitor: o facto de as pessoas entenderem aquilo que eu digo, faz de mim uma boa comunicadora?

Fico a aguardar pacientemente a sua resposta. Aviso desde já: a pergunta tem ratoeira.

Discutiremos o resultado no dia 31 de maio, na Escola Integrativa, em Penafiel.

Falar em público e fazê-lo bem é avassaladoramente bom. A possibilidade de usar diferentes tipos de linguagem para comunicar com os nossos pares, utilizar a escuta ativa, ser capaz de captar a atenção de quem nos ouve de forma direta e instantânea, adaptarmo-nos facilmente ao público-alvo e fazer isto tudo de forma eficiente e bem-sucedida é (in)explicável.

Mas se chegou até aqui e ainda precisa de ser convencido de que a trabalhar a comunicação é um investimento com retorno garantido, então a arte de falar em público talvez não seja para si. Afinal, comunicar (nem sempre) é canja.

 

Susana Martinho – Especialista em Comunicação

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