Nutrição nas Doenças Autoimunes e Saúde Mental: O Que Diz a Ciência
Hashimoto, artrite reumatoide, doença de Crohn, lúpus, psoríase. São diagnósticos diferentes, mas têm algo em comum: o sistema imunitário passa a atacar tecidos do próprio corpo. Ao mesmo tempo, a investigação tem mostrado que estas doenças surgem com frequência ao lado de ansiedade e depressão. Entre os fatores que ligam estas peças, a alimentação é um dos mais estudados, e também um dos mais rodeados de mitos.
O que é uma doença autoimune
Uma doença autoimune é uma condição em que o sistema imunitário deixa de distinguir corretamente o que é do próprio organismo e passa a produzir uma resposta inflamatória contra células e tecidos saudáveis. Existem mais de 80 doenças autoimunes identificadas, que podem afetar a tiroide, as articulações, o intestino, a pele ou o sistema nervoso. A causa é multifatorial: resulta da combinação entre predisposição genética e fatores ambientais, como infeções, stress, tabaco, alterações hormonais e alimentação.
A ligação entre inflamação e saúde mental
A inflamação não fica confinada ao órgão afetado. Algumas moléculas inflamatórias, as citocinas, conseguem influenciar o funcionamento do cérebro, nomeadamente as vias ligadas ao humor, à motivação e ao sono. É uma das razões pelas quais a depressão e a ansiedade são mais frequentes em pessoas com doenças autoimunes do que na população geral.
A relação também parece funcionar no sentido inverso: o stress crónico altera a resposta imunitária e pode contribuir para o agravamento dos sintomas. Por isso, a abordagem mais completa a estas doenças olha para o corpo e para a saúde mental em conjunto, e não como problemas separados.
O eixo intestino-cérebro
O eixo intestino-cérebro é a rede de comunicação nos dois sentidos entre o sistema digestivo e o sistema nervoso central. Essa comunicação faz-se pelo nervo vago, pelo sistema imunitário, por hormonas e por substâncias produzidas pela microbiota intestinal, o conjunto de microrganismos que vivem no intestino.
Uma revisão publicada em 2019 na revista Physiological Reviews reuniu a evidência sobre este eixo e mostrou que a microbiota participa na regulação da inflamação e do humor. A mesma revisão sublinha um ponto importante: grande parte dos dados vem de estudos em animais, e a investigação em humanos ainda está em curso. É uma área promissora, mas que pede cautela nas conclusões.
O que a evidência diz sobre alimentação
Padrão alimentar mediterrânico. É o padrão com mais evidência acumulada. Em 2017, o ensaio clínico SMILES, publicado na BMC Medicine, mostrou que pessoas com depressão que adotaram durante 12 semanas uma alimentação de tipo mediterrânico, com apoio de um nutricionista, tiveram uma melhoria significativamente maior dos sintomas do que o grupo de controlo. Este padrão, rico em legumes, fruta, leguminosas, cereais integrais, azeite e peixe, é também associado a menor inflamação.
Vitamina D e ómega-3. Em 2022, o ensaio VITAL, publicado no BMJ, acompanhou mais de 25 mil adultos durante cerca de cinco anos. O grupo que tomou vitamina D teve uma redução de 22% no diagnóstico de novas doenças autoimunes, em comparação com o placebo. O ómega-3 mostrou uma tendência de redução que não foi estatisticamente significativa no período principal do estudo. São resultados relevantes, mas não justificam a suplementação sem avaliação individual.
Dieta sem glúten. É indispensável na doença celíaca. Fora dela, nomeadamente no Hashimoto, a evidência resume-se a estudos pequenos e ainda não permite uma recomendação geral.
Dietas low carb e cetogénica. Estão a ser estudadas no contexto da saúde mental e de algumas doenças inflamatórias, com resultados iniciais interessantes. Ainda assim, são abordagens exigentes, que precisam de indicação e acompanhamento profissional e não se adequam a todas as pessoas.
Mitos comuns
“Existe uma dieta que cura doenças autoimunes.” Não existe. A alimentação pode ajudar a modular a inflamação e a melhorar sintomas, mas não substitui o tratamento médico.
“Toda a gente com doença autoimune deve cortar glúten e lacticínios.” Não há evidência para uma recomendação universal. As restrições sem indicação podem levar a carências nutricionais.
“Os suplementos são sempre seguros.” Doses elevadas de algumas vitaminas podem ter efeitos adversos e interagir com medicação. A suplementação deve partir de uma avaliação clínica.
Perguntas frequentes
A alimentação pode influenciar uma doença autoimune?
Pode influenciar a inflamação e a forma como os sintomas se manifestam, mas é um fator entre vários. A estratégia alimentar deve ser individual e articulada com o acompanhamento médico.
Qual é a ligação entre doenças autoimunes e depressão?
A inflamação crónica pode afetar o funcionamento do cérebro, e viver com uma doença crónica tem também impacto emocional. Por isso, a depressão e a ansiedade são mais frequentes nestas doenças.
O que é a microbiota intestinal?
É o conjunto de bactérias e outros microrganismos que vivem no intestino. Participa na digestão, na regulação do sistema imunitário e na comunicação com o cérebro.
Devo tomar vitamina D se tiver uma doença autoimune?
Só com indicação profissional, depois de avaliar os níveis no sangue e o contexto clínico de cada pessoa.
As doenças autoimunes resultam de uma interação complexa entre genes, ambiente e sistema imunitário, e estão muitas vezes ligadas à saúde mental através da inflamação e do eixo intestino-cérebro. A alimentação não é uma cura, mas é uma ferramenta com evidência crescente, sobretudo quando segue um padrão equilibrado como o mediterrânico e quando é ajustada a cada pessoa por profissionais com formação na área.